O uiraçu-falso é uma ave accipitriforme da família Accipitridae. Conhecido também como gavião-real-falso. Segundo alguns autores este gênero é insuficientemente distinto do gênero Harpia, fato confirmado por meio de estudos moleculares, que sugerem ser injustificável a manutenção de Morphnus como um gênero distinto de Harpia.
Segundo a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN, Morphnus guianensis é indicado como espécie “quase ameaçada” (NT). No Brasil é severamente ameaçada em vários estados localizados na Mata Atlântica, sendo “criticamente ameaçada” (CR) em São Paulo e Santa Catarina e, “regionalmente extinta” (RE) no Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul.
Mede de 81 a 91 cm de comprimento, sendo as fêmeas maiores e mais robustas que os machos, fato comum aos accipitriformes. Na cabeça, esbranquiçada ou acinzentada, apresentam penacho escuro, com uma única pena negra medial maior, diferenciando-o do gavião-real (Harpia harpyja), com duas penas. Pode apresentar-se tanto em fase clara como escura (melânica). Na fase clara, mais comum, o ventre é predominantemente branco, com estrias bege-claro, a partir do peito acinzentado. A cauda apresenta padrão barrado. Em vista dorsal, as asas são negras. O padrão melânico, pouco comum, foi inicialmente descrito como espécie distinta, sendo desconsiderada posteriormente. Apresenta-se quase totalmente negro, ponteado de branco, e estrias brancas no ventre.
O melanismo se consiste no aumento da produção de melanina, conferindo coloração mais escura ao indivíduo. Indivíduos melânicos se associam normalmente com outros indivíduos da mesma espécie, já que o melanismo não traz doenças associadas como o albinismo.
O caso dos rapinantes
No caso de algumas espécies de rapinantes, os indivíduos melânicos são chamados de indivíduos morfo escuro, fase escura, ou o termo em inglês “dark morph”. Nesse caso, a mutação não surge ao acaso, sendo que ela já está estabelecida. Numa mesma ninhada é possível haver indivíduos melânicos e não-melânicos. Os rapinantes “morfo escuro” apresentam essa coloração pelo resto da vida. O melanismo nesse caso dificulta a identificação das aves em campo, já que essas possuem uma coloração diferente da original e podem ser confundidas com outras espécies.
Os registros de alimentação da espécie são em sua maioria notas isoladas, as quais relatam a predação de pequenos mamíferos, serpentes (famílias Colubridae e Boidae) e anfíbios anuros. Ainda, Trail (1987) observou um ataque sem sucesso sobre um lek de galo-da-serra (Rupicola rupicola) e Bierregard (1984) sobre um grupo de jacamim-de-costas-cinzentas (Psophia crepitans). Sick (1997) também relata a caça de outras aves como jacus (Cracidae) e jacamins (Psophidae) embaixo de fruteiras. Recentemente, observou-se que mamíferos são altamente representados na dieta do Uiraçu-Falso, a qual inclui juparás (Potus flavus), esquilos (Sciurus sp.), filhotes de preguiça-de-três-dedos (Bradypus variegatus), marsupiais (Gomes, 2014) e 11 espécies de primatas de seis gêneros distintos (Costa-Araújo et al., 2015). Um quarto dos mamíferos registrados na dieta do Uiraçu-Falso são primatas (Gomes, 2014), especialmente indivíduos de pequeno porte: micos-leões-da-cara-dourada (Leontopithecus chrysomelas) e outros micos (Saguinus spp.), micos-de-cheiro (Saimiri spp.), guigós (Callicebus caligatus), parauacús (Pithecia sp.) e até indivíduos jovens de macaco-aranha (Ateles paniscus) (Costa-Araújo et al. 2015).
O trabalho mais tradicional e completo sobre a atividade reprodutiva de M. guianensis é o de Bierregard (1984). Este autor localizou um ninho próximo a Manaus, Brasil, numa reserva florestal do Instituto de Pesquisas da Amazônia – INPA, na BR-174 (Amazonas-Roraima). Acompanhou um único ciclo reprodutivo da espécie, e o desenvolvimento de um filhote que, por fim sumiu do ninho, tendo sido provavelmente predado ou morto. Um fato interessante neste casal observado é de que a fêmea apresentava o “morfo” negro da espécie, enquanto o macho apresentava “morfo” claro. Este casal produziu dois ovos, e apenas um filhote nasceu. O ninho estava em uma árvore “jararana” (Lecythidaceae sp.), a aproximadamente 28 metros do solo.
Podemos encontrar o gavião-real em florestas conservadas ou com pouca alteração, chamadas de primárias e secundárias. Esse gavião vive em altitudes que vão desde o nível do mar até acima dos mil metros. Vive sozinho ou em pares, passando boa parte do tempo imóvel, oculto em um poleiro alto de onde procura suas presas.
Possui ampla distribuição nos Neotrópicos, ocorrendo desde o México até o nordeste da Argentina. A distribuição da espécie foi recentemente revisada por Gomes & Sanaiotti (2015), os quais incluíram novas localidades de ocorrência. Na América do Norte, há registros no sul do México. Na America Central, a espécie foi encontrada em Belize, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Costa Rica e Panamá; na América do Sul na Colômbia, Equador, Bolívia, Peru, Venezuela, Guiana, Guiana Francesa, Suriname, Brasil, Argentina e Paraguai.
No Brasil o Uiraçu-Falso é tipicamente encontrado da Amazônia mas ainda ocorre no Cerrado e na Mata Atlântica (Gomes & Sanaiotti 2015). No Cerrado há um único registro em Minas Gerais (Moraes et al. 2015), disponibilizado aqui no WikiAves (http://www.wikiaves.com.br/1711352). Esta espécie ocorre na Mata Atlântica do Sul da Bahia (Costa-Araújo et al. 2015), Minas Gerais (Zorzin et al. 2006), Espírito Santo, São Paulo, Paraná, Santa Catarina (Albuquerque, 1986; Albuquerque et al. 2006) e Rio Grande do Sul (Gomes & Sanaiotti, 2015). O único registro atual documentado na Mata Atlântica é do Sul da Bahia, onde um indivíduo adulto foi observado caçando micos-leões em um pequeno fragmento de Floresta de Tabuleiro (Costa-Araújo et al. 2015).